SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Coco e o Rei do Ritmo

Kydelmir Dantas (*)
COCO: Ritmo comum do litoral do nordeste apareceu como dança no século XVIII. Em geral bastam um pandeiro ou um ganzá para marcar o ritmo, que é mantido pelo som de palmas, e se forma em moda de cantadores e dançadores (Nova História da MPB, 2a Edição - 1977 - Ed. Abril Cultural).

Segundo Manezinho Araújo, o Coco originou-se no Quilombo dos Palmares, onde os negros passavam horas quebrando coco e cantando na cadência das batidas da casca, dessa fruta, nas pedras. A forma obedece ao compasso 2/4 e 4/4.
As variações baseiam-se em vários critérios, como:
- O lugar: Coco-de-pedra, Coco-do Sertão, Coco-de-roda.
- Instrumentos Utilizados:
-- Coco de Ganzá = Tipo de chocalho.
-- Coco de Zambê = Instrumento de Percussão.
-- Coco de Mungonguê = Espécie de tamborim.
- Versos Usados: Coco Agalopado, de Sétima, de Embolada, etc.

Porém, o mestre Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro ressalta que, mesmo com toda a influência Africana a disposição coreográfica coincide com as preferências dos bailados indígenas, especialmente os Tupis da costa brasileira.
Mesmo sintetizando em poucas linhas o Coco, não poderíamos deixar de falar no seu maior representante, nos dizeres de Pinto Carneiro, um dos mais ecléticos cantadores do Brasil, que a tudo interpretava com habilidade de Mestre. Era o protótipo do homem do mato, simples, alegre e inteligente, era JACKSON DO PANDEIRO.
Nascido em 31 de agosto de 1919 e batizado de José Gomes Filho, recebeu influência total de sua mãe Dona Flora Mourão, como era mais conhecida Flória Maria da Conceição, a mais requisitada “Tiradora de Coco”, das festas de Alagoa Grande, na Paraíba, que cantava e tocava ganzá, acompanhada por outra pessoa no zabumba. Aos 8 anos de idade ele pegou num zabumba pela primeira vez e passou a acompanhar a mãe nas suas apresentações.
Após a morte de seu pai a família foi morar em Campina Grande e o menino foi trabalhar numa padaria. Aos 17 anos, ele substituiu o baterista de um conjunto musical que se apresentava no Clube Ipiranga, tornando-se instrumentista desse grupo. Na década de 40 foi morar em João Pessoa e tocou em vários cabarés, até que em 1946 foi contratado pela Rádio Tabajara, onde começou a se projetar como ritmista no pandeiro, era conhecido por Zé Jack, devido a sua figura magra lembrar o ator americano de filmes faroeste Jack Perry, e em 1948 foi trabalhar na rádio Jornal do Comércio, de Recife (PE), adotando o nome artístico que ficaria famoso, Jackson do Pandeiro, e fazendo dupla com Rosil Cavalcante, de Macaparana (PE).
O primeiro disco gravado, pelo selo Copacabana, foi em 1953 onde ele canta um dos seus maiores sucessos: “SEBASTIANA”, de Rosil Cavalcanti, juntamente com “FORRÓ EM LIMOEIRO”, de Edgar Ferreira.
A partir daí, já conhecido em todo o país, vieram outras gravações que se tornaram sucessos: “Cabo Tenório” e “Moxotó” (Rosil Cavalcanti); “Forró em Limoeiro” e “1 a 1” (Edgar Ferreira); “O Canto da Ema” (Aires Viana, Alventino Câmara e João do Vale); “Como Tem Zé na Paraíba” (Manezinho Araújo e Catulo de Paula); “Chiclete Com Banana” (Gordurinha e Almira Castilho) e mais um rosário de boas músicas, com letras irreverentes ou não, que o fizeram conhecido como cantor. Porém Ele também compunha: é que uma boa parte de suas composições Jackson colocava em nome de Almira Castilho, sua parceira e esposa de 1959 a 67. Citando algumas composições suas mais conhecidas, temos: “Na Base da Chinela” (JP & Rosil Cavalcanti); “Aquilo Bom” (JP & José Batista); “Cantiga da Perua” (JP & Elias Soares); “Cabeça Feita” (JP & Sebastião Batista) etc.
Muitos dos grandes nomes da MPB se disseram influenciados por Jackson, ou gravaram músicas que foram sucesso com e do mesmo: Alceu Valença, Caetano Veloso, Gil, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Trio Nordestino, Luiz Gonzaga, Chiclete com Banana; temos na Paraíba um cantor/poeta que é um dos seus mais fiéis seguidores, Biliu de Campina, fazendo o mesmo que o Mestre fazia: a “divisão”, ou seja, dividir os versos ritmicamente usando a voz como um instrumento de percussão. Hoje, após 76 anos do seu nascimento, as palavras do Rei do Ritmo continuam proféticas, para os que lutam e defendem a Música Popular Brasileira:
“- Mesmo com a perseguição da música estrangeira, eu agüentei a barra durante 12 anos. Eu e o Luiz Gonzaga. Nunca parei de fazer gravações.”
“Sua Figura rude não sofreu qualquer transformação, de Alagoa Grande-PB - onde nasceu - ao Rio de Janeiro, onde conheceu os lauréis da glória.” (Pinto Carneiro).
Amém, JACKSON DO PANDEIRO, amém!

(*) Escritor, poeta, sócio da SBEC.

Um comentário:

Mendes e Mendes disse...

Parabéns Kildemir Dantas! Você foi buscar o Jackson do Pandeiro longe. Todas essas letras que você relembra em seu texto, foram do meu tempo. Jackson do Pandeiro deixou belas culturas nordestinas para os futuros artista nordestinos. José Mendes Peirera - Mossoró - Rio Grande do Norte

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