SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Vergonha Que Não Tenho de Ser Nordestina

Sheila Raposo (*)
Arte: selo emitido pela ECT em 2002, pela Preservação da Caatinga Nordestina.
A ave é uma jacucaca.

Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.
Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri Paraibano, correndo de boi brabo, brincando de boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.
Sou nordestina. Falo ôxente, vôte e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria-José! Proseio mi, a língua ligeira, que engole sílabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato. Os amigos acham até engraçado e dizem que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E olhe: “acho que não vai sair é nunca”!
Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquela que quando a gente termina de engolir o suor já está pingando nos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em casa!
Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e ai indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou minha identidade cultural.
Sou nordestina me emociono quando assisto uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.
Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som de xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: Pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo um pandeiro ou uma rabeca Mas dançar ao som desse trio é bom demais. E fico nesse relabucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô negócio bom!
Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte de côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista desconhecido é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.
Sou nordestina. E não existe música mais bonita para os meus ouvidos do que a tocada por São Pedro quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.
Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou apaixonada por uma pequena parte dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludribiando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro.Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas.


(*) Escritora, poetisa, jornalista.

3 comentários:

Lene Monteiro disse...

Emocionante!!! Simplesmente um sentimento que deve ser cultivado no mais intímo, de cada coração nordestino. Bravo.

Narciso disse...

Eitxa Paraibana arretada,belíssimo sentimento pela nossa terra e nossa gente da Bahia ao Maranhão estamos orgulhosos... Um abraço paraibano

Penaforte disse...

Só quem ama essa terra profundamente pode relatar tão bem a nossa alma...entre um fungado e outro de emoção,te digo,parabéns !

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