SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Cangaço e Misticismo

Ângelo Osmiro Barreto (*)
Arte: Xilogravuras: José Pacheco & Inventum Design e Soluções Gráficas

Cangaço e misticismo são temas genuinamente ligados às coisas nordestinas, ao sertão. O homem sertanejo que viveu no final do século XIX e início do século XX conviveu sobremaneira com místicos e cangaceiros. Produtos da mesma cultura, vítimas de igual opressão.

A fome e a miséria, que aumentavam com as secas, faziam com que se manifestassem dois tipos de reação: a formação de grupos de cangaceiros com armas nas mãos, assaltando fazendas, saqueando comboios, cidades e vilas; e seitas de místicos, geralmente em torno de um beato ou conselheiro, para implorar dádivas aos céus e pedir perdão pelos pecados. O fanático, em geral, era um homem que aprendeu a respeitar os santos, temer a Deus, praticar a virtude, ser justo, portanto não era um alienado, como alguns possam vir a pensar.

Paulo Dantas em seu prefácio para a segunda edição do livro “Lampião” de Ranulfo Prata, diz com bastante propriedade: “Os beatos pertencem ao chamado folclore mágico, já os cangaceiros ao folclore heróico”.

O sertanejo vê no cangaceiro o anseio de justiça contra o poder político e as ordens dos coronéis. O cangaço acaba sendo uma forma de vingança. Lampião mata, depreda, incendeia, mas depois de alguns momentos reza, tira terço, ajoelha-se ao raiar do dia e ao final da tarde. A religiosidade arcaica do sertanejo é proporcional a sua valentia. O místico anda ao lado com o cangaço.

Não podemos falar em misticismo sem citar Padre Ibiapina, Antonio Conselheiro, beato José Lourenço e padre Cícero, (para citarmos os mais importantes), todos cearenses, exceto José Lourenço, nascido nas Alagoas.

Porém o acontecimento místico que talvez esteja mais ligado a nós, principalmente pelo legado que nos deixou, seja o do venerável padre Cícero Romão Batista, ao qual daremos destaque.

Cearense nascido no Crato, ordenou-se no seminário da Prainha, em Fortaleza no Ceará. Voltando a seu torrão natal, instalou-se em um povoado chamado Joazeiro, até então distrito do Crato. Naquela ocasião Joazeiro era um pequeno arruado com algumas poucas choupanas e uma pequenina capela.

No ano de 1889, na primeira sexta feira de março, a beata Maria de Araújo caiu em transe ao receber a hóstia das mãos do padre Cícero, fato repetido várias vezes. É dito também que as hóstias sangraram. A noticia se espalha, não só no Cariri, mas em todo sertão nordestino. Multidões acorrem a Joazeiro para presenciar o milagre. A Igreja interpreta a situação como uma ameaça a seu poder.

Anos depois o padre é acusado de acoitar cangaceiros. Uma das maiores polêmicas envolvendo o famoso reverendo do Juazeiro se deu no ano de 1926. Em maio daquele ano, Lampião e seu bando adentraram ao Juazeiro. O convite havia partido do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, médico baiano radicado em Juazeiro e uma espécie de braço político do Padre Cícero. O motivo seria que Lampião e seu grupo dessem combate a Coluna Prestes. Para tal, Lampião receberia uma patente de Capitão do Batalhão Patriótico. O Dr. Floro Bartolomeu é acometido de doença grave e é levado ao Rio de Janeiro, vindo a falecer.

O padre recebe o cangaceiro, e para outorgar as patentes prometidas, de forma até bizarra, convoca o Sr. Pedro Albuquerque Uchoa, único funcionário público federal do lugar, e manda redigir e assinar as patentes de capitão para Virgulino e de tenentes para Sabino Gomes, seu braço direito, e Antonio Ferreira, seu irmão. Pedro Albuquerque, depois chamado para se justificar no comando Militar do Recife, teria dito que naquela hora, com aquelas feras a seu lado assinaria até a deposição do presidente Arthur Bernardes, quanto mais uma patente de capitão para Lampião.

O padre Cícero iria ainda viver muitos anos, aumentando seu prestígio perante a população carente do nordeste. Quando de sua morte em 1934, Juazeiro já havia crescido muito, continuando a crescer depois dela, sempre na sombra daquele reverendo tão amado pelo povo humilde do sertão. Pediu para que os romeiros não deixassem de vir ao Juazeiro, mesmo depois de sua morte, e a prova está aí, hoje Juazeiro do Norte é uma das cidades brasileiras mais procuradas, quando o assunto é romaria.

Durante a perseguição que sofreu de alguns setores da Igreja, após os pretensos milagres, profetizou: “Chegará o tempo em que a própria Igreja vai me defender”, e esse tempo já chegou, como vimos a poucos dias uma comissão de clérigos, autoridades e políticos, dentre eles o governador do Ceará, foi ao vaticano reivindicar a reabilitação do padre Cícero.

Cangaceiros e beatos são as duas faces da mesma moeda, habitantes de um sertão carente de tudo, principalmente de justiça. Com armas nas mãos, os cangaceiros. Com terços, os beatos. Cada um a sua maneira lutava contra as intempéries sofridas, contra secas periódicas que arrastavam consigo a miséria e a fome, além dos poderosos coronéis com suas leis impostas através da força e do trabuco. Como forma de resistência tinha duas opções: lutar, tornando-se um cangaceiro, ou ainda orar por dias melhores tornando-se um beato, conselheiro ou simples seguidor de um deles.

(*) Escritor e pesquisador do Cangaço. Membro efetivo da SBEC.

Um comentário:

Valdecy Alves disse...

Veja documentário que fiz sobre Padre Cícero, após dois anos de filmagens. Intitulado: PADIM CIÇO, SANTOU OU CORONEL? Se gostar, comente, avalie e divulgue. Pode acessar através do meu blog:

www.valdecyalves.blogspot.com

acessos nos últimos 30 dias